Reportagens, ideias e afins

Por Angélica Oliveira

Para ver com outros olhos

Olhar com o ouvido, ver com a pele, enxergar com o olfato. Experiência pura e viva de sinestesia. Quer um exemplo? Pense numa sala ampla, com uma cadeira ao centro. Na cadeira estão dois xales, ao primeiro olhar semelhantes, distinguindo-se apenas nas cores, um rosa e o outro bege. Duas mulheres aproximam–se e, sem nenhuma dificuldade, cada uma identifica o seu. Simples, diria o leitor, a identificação aconteceu pela cor. Nada seria mais óbvio, se as duas mulheres não fossem cegas. O que teria acontecido, então?
O segredo da história é que, na verdade, os xales pareciam iguais, mas não eram. Diferenciavam-se não apenas na cor, mas também no ponto de crochê de que eram feitos. Detalhe imperceptível aos olhos, porém, apreendido pelas mãos. “Na rua, percebo os locais livres para a passagem, pela corrente de ar que sinto na minha pele”, explica Lindaura Prezotti, que possui somente 5% da visão. Ela e mais seis pessoas, participam da oficina “Movimento Expressivo”, dentro da programação dos Projetos de Maio no FILO. A oficina pretende mostrar uma percepção particular de Londrina, mostrar a cidade percebida pelos cegos.
Os cheiros que Londrina tem, os seus sabores e outras sensações, que estão além do olhar. “Eles me relataram casos que viveram ou presenciaram e a gente montou o espetáculo, que trabalha a linguagem textual e corporal também”, explica Ceres Vittori, professora de artes cênicas e coordenadora do trabalho. “Gostei muito, é bom as pessoas conhecerem as situações que a gente passa e entender que somos tão normais quanto elas”, fala Marta Marssei, que participa pela segunda vez de oficinas do FILO. Para o estudante de artes cênicas Jodair Moreno, o trabalho com os cegos foi gratificante: “O programa foi rápido, mas essa experiência mudou minha vida. Às vezes eles atuam melhor que eu”, revela.
O trabalho, desenvolvido pelo grupo durante a oficina, resultou no espetáculo “Em terra de cego, quem tem olho é cego”, que será apresentado neste sábado, às 19h30 no Espaço Petrobras. “Eles vão ter que conduzir o público, normalmente, eles são conduzidos, esse vai ser o desafio”, explica Ceres. “A gente queria ter a casa cheia”, comenta Lindaura.

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