Reportagens, ideias e afins
Por Angélica Oliveira
A PRIMEIRA IMPRESSÃO:
Multíplas escolhas: A história de mulheres muçulmanas em países democráticos.
Aos olhos de um ocidental comum, muitos dos costumes e crenças do islamismo parecem estranhos e até mesmo absurdos. No Islã, do vestuário à alimentação, todos os aspectos da vida do indivíduo devem ser regidos pela religião. Isso não significa que todas as pessoas alcancem, ou mesmo, almejem esse fim. Ivone Joslim, de 55 anos, é casada há 22 com Omar Hayke, devoto libanês muçulmano, hoje vice-sheik da Mesquita Rei Faiçal de Londrina. Ela admite que foi por insistência do marido que se converteu ao islamismo. Entretanto, diz compartilhar de muitos dos valores da religião, apesar de não se considerar muito praticante: “leio o Alcorão, faço minhas orações, mas não sigo todas as obrigações a risca. Não uso véu. Ele pede, gostaria que eu usasse, mas véu só dentro da Mesquita, porque daí precisa mesmo, né?” afirma a professora aposentada.
Ivone é um exemplo de mulher muçulmana, que se difere muito das descritas nos relatos de livros como o da iraniana e também professora Azar Nafisi. “Lendo Lolita em Teerã”, por meses na lista do mais vendidos do jornal The New York Times, retrata a experiência da autora na opressora realidade das mulheres dos aiatolás da Revolução de 1979, no Irã. As descrições das medidas impostas às muçulmanas são inúmeras e denunciam as duras condições de um modo de vida delimitado por um Estado teocrático fundamentalista. No extremismo de alguns regimes islâmicos, os direitos à igualdade e à liberdade de expressão são contrariados e feridos. Leis, como as existentes no Afeganistão, no período do governo do Talibã, condenavam mulheres por prostituição e adultério ao apedrejamento público.
Ivone é um exemplo de mulher muçulmana, que se difere muito das descritas nos relatos de livros como o da iraniana e também professora Azar Nafisi. “Lendo Lolita em Teerã”, por meses na lista do mais vendidos do jornal The New York Times, retrata a experiência da autora na opressora realidade das mulheres dos aiatolás da Revolução de 1979, no Irã. As descrições das medidas impostas às muçulmanas são inúmeras e denunciam as duras condições de um modo de vida delimitado por um Estado teocrático fundamentalista. No extremismo de alguns regimes islâmicos, os direitos à igualdade e à liberdade de expressão são contrariados e feridos. Leis, como as existentes no Afeganistão, no período do governo do Talibã, condenavam mulheres por prostituição e adultério ao apedrejamento público.
O choque causado por essa forma de tratamento dado a muitas muçulmanas, no cotidiano familiar e social de comunidades fundamentalistas islâmicas, é inevitável. Entretanto, vale lembrar, que o fundamentalismo é uma pequena corrente, dentro de uma religião com mais de 1,3 bilhões de pessoas. “O islamismo é uma religião muito bonita, que prega o temor e submissão a Deus. O muçulmano acredita no destino e no respeito às pessoas e à natureza. É isso que eu trago do islamismo pra minha vida” defende Magda Omar Mohamad Hayek, 21 anos, estudante universitária e filha do vice-sheik Omar.
Para ela, a imposição dos desejos do pai restringe algumas atividades ou comportamentos, mas nada que a impeça realmente de fazer algo. “Ele não gosta muito que eu saia à noite, implica com roupas e nisso eu prefiro ceder um pouco, procuro comprar roupas compridas, que eu sei que ele não vai implicar. Mas não que numa festa ou para sair, quando meu pai não está vendo, eu não possa usar outra coisa. A gente respeita a opinião dele, pra evitar ficar discutindo sempre as mesmas coisas”. A mãe Ivone faz coro à idéia da filha “Pra não perder a harmonia dentro de casa, a gente aceita muita coisa. Me adaptei a essa vida, mas não é uma coisa que me agride.”
Azar Nafisi, em entrevista a revista Veja, declarou que o problema de repressão feminina no Irã não tem origem na religião, mas na leitura radical do Corão, do qual são extraídas as leis da sharia, que no caso iraniano, são interpretadas de forma rígida e literal, sendo aplicadas como leis. “O problema não é a religião, mas quando a religião se transforma em Estado, quando a religião vira lei. A submissão total e irrestrita nunca fez parte da cultura das mulheres do Irã (...). O problema atual não é a religião. É a liberdade de escolha”.
Em países democráticos, a religião islâmica pode conviver pacificamente com os valores ocidentais. Onde existe a liberdade de escolha, existe também a liberdade de interpretação da religião. “Nunca usei o véu, não me sinto a vontade para usar. Essa escolha vai de acordo com a opinião de cada pessoa. Existem mulheres que encaram isso como pureza, um sinal de religiosidade. Mas eu não quero usar. Há certas coisas da religião que não tem como praticar”, explica Magda, que se sente bem em relação à religião e às suas escolhas.
Para ela, a imposição dos desejos do pai restringe algumas atividades ou comportamentos, mas nada que a impeça realmente de fazer algo. “Ele não gosta muito que eu saia à noite, implica com roupas e nisso eu prefiro ceder um pouco, procuro comprar roupas compridas, que eu sei que ele não vai implicar. Mas não que numa festa ou para sair, quando meu pai não está vendo, eu não possa usar outra coisa. A gente respeita a opinião dele, pra evitar ficar discutindo sempre as mesmas coisas”. A mãe Ivone faz coro à idéia da filha “Pra não perder a harmonia dentro de casa, a gente aceita muita coisa. Me adaptei a essa vida, mas não é uma coisa que me agride.”
Azar Nafisi, em entrevista a revista Veja, declarou que o problema de repressão feminina no Irã não tem origem na religião, mas na leitura radical do Corão, do qual são extraídas as leis da sharia, que no caso iraniano, são interpretadas de forma rígida e literal, sendo aplicadas como leis. “O problema não é a religião, mas quando a religião se transforma em Estado, quando a religião vira lei. A submissão total e irrestrita nunca fez parte da cultura das mulheres do Irã (...). O problema atual não é a religião. É a liberdade de escolha”.
Em países democráticos, a religião islâmica pode conviver pacificamente com os valores ocidentais. Onde existe a liberdade de escolha, existe também a liberdade de interpretação da religião. “Nunca usei o véu, não me sinto a vontade para usar. Essa escolha vai de acordo com a opinião de cada pessoa. Existem mulheres que encaram isso como pureza, um sinal de religiosidade. Mas eu não quero usar. Há certas coisas da religião que não tem como praticar”, explica Magda, que se sente bem em relação à religião e às suas escolhas.
Um estilo peculiar de vida:Anissa Muhammad, de 29 anos, diz usar a burca por vontade própria.
Para Anissa Muhammad, formada em teologia islâmica, o papel dos homens e mulheres no mundo é o mesmo: adorar a Deus e espalhar a paz. “No sagrado Alcorão, Deus revelou um capítulo que chama-se "A Mulher"e outro capítulo que chama-se "Maria"; mostrando a importancia da mulher. Em várias outras partes, Deus quando fala do crente também fala da crente” afirma Anissa, que se queixa da forma negativa como a mulher mulçumana é retratada na imprensa ocidental. “A midia dá a entender que a mulher, no islamismo, não estuda, que é oprimida e que não tem opção própria e não é bem assim. Aqui em londrina a maior parte das mulheres têm uma formção acadêmica e ainda mais, não só aqui em Londrina, como em vários paises europeus” , defende.O marido de Anissa, o sheik Yamani Abdual, também discorda da imagem das mulheres islâmicas feita pela mídia, para ele, as leis do Islã ao contrário do que dizem os meios, as protegem. “Para nós, nenhuma mulher é obrigada a sustentar seu marido, ou a lhe dar sua herança, ou a trabalhar para ele em casa. Em compensação, todo homem islâmico é obrigado a sustentar sua esposa, dar a ela boas condições de vida” explica.
Quem vê Anissa pelas ruas da Vila Siam , no sumercado, ou buscando as filhas no colégio, não deixa de notar sua presença. Os tecidos coloridos que a cobrem da cabeça aos pés chamam a atenção. Entretanto, se a aparência inquieta, a simpatia conquista. Vestindo burcas diariamente, Anissa realiza todas as atividades que lhe são cabidas. É mãe de duas meninas, dona de casa, dá aulas de lingua árabe e ajuda em outras tarefas na Mesquita.
Ela afirma que o uso da burca é uma escolha pessoal e que não se incomoda com o estranhamento, tantas vezes manisfestado pelas pessoas, “no início elas reagem com algum espanto, mas depois acabam se habituando. Isso é de se esperar num país onde as pessoas nao estao acostumadas”, concluí.
“Por aqui todo mundo conhece e Anissa, ela é uma pessoa muito boa, conversa com todo mundo. As pessoas admiram a religiosidade dela” comenta Mohamed El’ Rafih, frequentador da Mesquita, que complementa: “o Brasil recebe bem as culturas diferentes, não há muitas dificuldades em ser muçulmano por aqui”.
Mulheres para cá, homens para lá
O movimento é semelhante e recorrente. Ao chegar no pátio da Mesquita, as bolsas são abertas e os lenços e véus retirados. Os cabelos, ombros e braços precisam ser cobertos para o momento de oração.
Homens e mulheres entram pela mesma porta, porém, seus lugares são distintos. Os homens permanecem no andar térreo da Mesquita, enquanto as mulheres são conduzidas ao andar superior, por uma escada no canto direito do saguão. No chão, tapetes das mais diversas cores contrastam com o branco das paredes sem imagens .
A luz do sol ilumina todo a ambiente, através de vitrais coloridos em amarelo, laranja, vermelho e azul. No lugar destinado às mulheres, uma espécie de mezanino resguardado, além dos tapetes, almofadas verdes garantem o conforto das devotas. Todas com o corpo coberto por véus, algumas com túnicas, observam e participam do culto por detrás de uma cortina de renda branca, que as separa e as oculta dos olhares dos homens no andar de baixo.
O vice-sheik Omar Hayek explica que a motivo da separação é garantia do bom andamento do culto, “as pessoas se concentram melhor assim. Se as mulheres estão junto, os homens se concentram menos”, argumenta. Para ele, marido de Ivone e pai de Magda, o islamismo valoriza as mulheres, “a mulher é como uma jóia. Quem vai querer entregar o ouro pro bandido? Proteger a mulher é obrigação de todo homem mulçumano ”, justifica.
Omar nunca se opôs ao trabalho ou aos estudos da mulher e da filha, entretanto, considera que melhor seria se as mulheres pudessem se dedicar totalmente à família, à casa e aos filhos. “Meu pai, às vezes, exagera em alguma coisas, como toda pessoa muito religiosa. Ele tem suas preferências, algumas eu acato, outras não” revelou Magda. A estudante diz buscar o equilibrio entre suas atividades cotidianas e os valores da religião para assim, levar uma vida normal e em harmonia com o pai.
Do mesmo modo como muitas mulheres retiram seus véus e lenços, guardando-os nas bolsas, quando o culto na Mesquita chega ao fim, Magda também demarca os limites entre a religião e os demais aspectos de sua vida. “Existem coisas que a religião exige que não são fáceis. Na verdade, a gente vai convivendo com os dois lados. Não tem como seguir exatamente o que acontece nos países mulçumanos, aqui no Brasil. Você acaba misturando as coisas e assimilando as duas culturas”, revela.
Homens e mulheres entram pela mesma porta, porém, seus lugares são distintos. Os homens permanecem no andar térreo da Mesquita, enquanto as mulheres são conduzidas ao andar superior, por uma escada no canto direito do saguão. No chão, tapetes das mais diversas cores contrastam com o branco das paredes sem imagens .
A luz do sol ilumina todo a ambiente, através de vitrais coloridos em amarelo, laranja, vermelho e azul. No lugar destinado às mulheres, uma espécie de mezanino resguardado, além dos tapetes, almofadas verdes garantem o conforto das devotas. Todas com o corpo coberto por véus, algumas com túnicas, observam e participam do culto por detrás de uma cortina de renda branca, que as separa e as oculta dos olhares dos homens no andar de baixo.
O vice-sheik Omar Hayek explica que a motivo da separação é garantia do bom andamento do culto, “as pessoas se concentram melhor assim. Se as mulheres estão junto, os homens se concentram menos”, argumenta. Para ele, marido de Ivone e pai de Magda, o islamismo valoriza as mulheres, “a mulher é como uma jóia. Quem vai querer entregar o ouro pro bandido? Proteger a mulher é obrigação de todo homem mulçumano ”, justifica.
Omar nunca se opôs ao trabalho ou aos estudos da mulher e da filha, entretanto, considera que melhor seria se as mulheres pudessem se dedicar totalmente à família, à casa e aos filhos. “Meu pai, às vezes, exagera em alguma coisas, como toda pessoa muito religiosa. Ele tem suas preferências, algumas eu acato, outras não” revelou Magda. A estudante diz buscar o equilibrio entre suas atividades cotidianas e os valores da religião para assim, levar uma vida normal e em harmonia com o pai.
Do mesmo modo como muitas mulheres retiram seus véus e lenços, guardando-os nas bolsas, quando o culto na Mesquita chega ao fim, Magda também demarca os limites entre a religião e os demais aspectos de sua vida. “Existem coisas que a religião exige que não são fáceis. Na verdade, a gente vai convivendo com os dois lados. Não tem como seguir exatamente o que acontece nos países mulçumanos, aqui no Brasil. Você acaba misturando as coisas e assimilando as duas culturas”, revela.
A rotina de ir e vir
Às 5h20 da manhã, o relógio desperta. Não importa se o sono ainda pesa sobre os olhos ou se, lá fora, o dia não amanheceu por completo. Ao som do sino eletrônico o corpo tem que se levantar e num trajeto quase automático, dirigir-se ao banheiro, depois à cozinha e, por fim, à rua. O encontro é sempre pontual, às 6h10, a grande lata amarela passa na rua de cima.
Uns minutos a mais de preguiça na cama ou demora no café implicam em espera e bronca no serviço para Edivani Andrade. Como doméstica há mais de sete anos, sua rotina concentra-se no trabalho e nos afazeres da própria casa. E a distância que separa um do outro é grande: “saio de casa às seis horas e chego na casa do meu patrão às 7:15”, comenta a moça, que demonstra cansaço e ansiedade no retorno para casa “no começo da semana é tranqüilo, mas lá pela quinta-feira, a gente já ta pedindo arrego, a viagem é demorada e cansa bastante”.
Entre o sair de manhã, do Parque Universitário, bairro próximo ao Jd. Columbia, e chegar ao centro da cidade, onde trabalha, e depois, pela tarde, percorrer o caminho inverso, Edivani despende mais de duas horas de seu dia. Ao longo da semana, são aproximadamente dez horas vividas nesse trajeto, compartilhado entre semblantes estranhos e amigos.
Na ida, a companhia da irmã e o papo com conhecidos ajudam a driblar o tédio e o desconforto do ônibus lotado. No qual, as conversas se misturam, mas sem impedir o cochilo de alguns, que aparentemente encontram conforto na dureza dos bancos. Na volta, a revista de palavras cruzadas ocupa-lhe o tempo, já que o cansaço parece emudecer muitos dos usuários, que permanecem entretidos, cada um em si mesmo. Entretanto, constantemente, rompe-se o silêncio, com o tom elevado dos estudantes, que ao término das aulas, retornam em bandos para casa.
Passados sessenta minutos após a saída do Terminal Urbano da cidade, o 305- Via Parque Universitário chega a sua região de destino. Aos poucos, vai desinchando, até restarem murchos: cobrador, motorista e ralos passageiros. “Vou descer no próximo ponto”, suspira Edivani, que enfim, poderá descansar até, às 5h20, quando o relógio novamente desperta.
Uns minutos a mais de preguiça na cama ou demora no café implicam em espera e bronca no serviço para Edivani Andrade. Como doméstica há mais de sete anos, sua rotina concentra-se no trabalho e nos afazeres da própria casa. E a distância que separa um do outro é grande: “saio de casa às seis horas e chego na casa do meu patrão às 7:15”, comenta a moça, que demonstra cansaço e ansiedade no retorno para casa “no começo da semana é tranqüilo, mas lá pela quinta-feira, a gente já ta pedindo arrego, a viagem é demorada e cansa bastante”.
Entre o sair de manhã, do Parque Universitário, bairro próximo ao Jd. Columbia, e chegar ao centro da cidade, onde trabalha, e depois, pela tarde, percorrer o caminho inverso, Edivani despende mais de duas horas de seu dia. Ao longo da semana, são aproximadamente dez horas vividas nesse trajeto, compartilhado entre semblantes estranhos e amigos.
Na ida, a companhia da irmã e o papo com conhecidos ajudam a driblar o tédio e o desconforto do ônibus lotado. No qual, as conversas se misturam, mas sem impedir o cochilo de alguns, que aparentemente encontram conforto na dureza dos bancos. Na volta, a revista de palavras cruzadas ocupa-lhe o tempo, já que o cansaço parece emudecer muitos dos usuários, que permanecem entretidos, cada um em si mesmo. Entretanto, constantemente, rompe-se o silêncio, com o tom elevado dos estudantes, que ao término das aulas, retornam em bandos para casa.
Passados sessenta minutos após a saída do Terminal Urbano da cidade, o 305- Via Parque Universitário chega a sua região de destino. Aos poucos, vai desinchando, até restarem murchos: cobrador, motorista e ralos passageiros. “Vou descer no próximo ponto”, suspira Edivani, que enfim, poderá descansar até, às 5h20, quando o relógio novamente desperta.
Afeto no transporte público
Expressiva parcela da população londrinense tem o transporte coletivo integrado à sua rotina. Segundo dados das CMTU, diariamente, o Terminal Urbano da cidade recebe mais de 125 mil passageiros. São milhares de indivíduos com um significativo tempo de vida perdido no vai-vem dentro dos ônibus.
No entanto, para os que trabalham nesse meio, a rotina ganha novas cores e contornos. Paulo Nicolau, por exemplo, trabalha como cobrador há 27 anos, dentro dos quais, 23 foram passados numa mesma linha. “Cansa, mas é melhor ficar numa linha só, porque você se acostuma com pessoal, acaba criando amizade”, explica o cobrador que nesses 23 anos conheceu e acompanhou a vida de muita gente. “Quando eu entrei na 110, a Mister Thomas, ela era nenezinha de colo, eu vi a menina crescer e fui até convidado pra ser padrinho no casamento dela”, conta seo Nicolau com um sorriso entre os lábios e um ar saudosista. Há quatro meses ele foi transferido para a linha 308. “A gente acaba se acostumando”, conclui, ao término dos cinco minutos de intervalo que faz, quando possível, entre uma viagem e outra.
Em um ponto próximo ao seu, no 213, trabalha Vitor Fernandes, que compartilha da opinião do colega sobre a permanência no mesmo itinerário. Cobrador há 28 anos, ele permaneceu 11 deles na linha 407, que faz o trajeto Centro/ Conj. João Paes, na zona norte. “O bom da 407 era que o pessoal era conhecido; agora, para o shopping, as pessoas são sempre diferentes, mas o trabalho é o mesmo, no fim dá uma dor nas costas”, explica seo Vitor com o bom humor que cativa muitos dos passageiros.
Outro que prefere a rotina de quem trabalha no transporte coletivo é Mizael de Oliveira. Motorista há cinco anos, quando começou, ele trabalhava em uma linha, mas logo passou para a 109, na qual seu trabalho se baseia em levar e trazer passageiros da rodoviária ao centro da cidade. De segunda a sexta-feira, ele só trabalha nessa linha, mas conta que de final de semana existe um revezamento. Além de gostar da rotina em si, ele também está satisfeito com a linha em que trabalha, pois a considera muito tranqüila. No entanto, apontando os dedos para a própria barriga, como se fosse uma arma, Mizael fala do sofrimento de alguns colegas, que se sentem inseguros por trabalharem em rotas perigosas.
No entanto, para os que trabalham nesse meio, a rotina ganha novas cores e contornos. Paulo Nicolau, por exemplo, trabalha como cobrador há 27 anos, dentro dos quais, 23 foram passados numa mesma linha. “Cansa, mas é melhor ficar numa linha só, porque você se acostuma com pessoal, acaba criando amizade”, explica o cobrador que nesses 23 anos conheceu e acompanhou a vida de muita gente. “Quando eu entrei na 110, a Mister Thomas, ela era nenezinha de colo, eu vi a menina crescer e fui até convidado pra ser padrinho no casamento dela”, conta seo Nicolau com um sorriso entre os lábios e um ar saudosista. Há quatro meses ele foi transferido para a linha 308. “A gente acaba se acostumando”, conclui, ao término dos cinco minutos de intervalo que faz, quando possível, entre uma viagem e outra.
Em um ponto próximo ao seu, no 213, trabalha Vitor Fernandes, que compartilha da opinião do colega sobre a permanência no mesmo itinerário. Cobrador há 28 anos, ele permaneceu 11 deles na linha 407, que faz o trajeto Centro/ Conj. João Paes, na zona norte. “O bom da 407 era que o pessoal era conhecido; agora, para o shopping, as pessoas são sempre diferentes, mas o trabalho é o mesmo, no fim dá uma dor nas costas”, explica seo Vitor com o bom humor que cativa muitos dos passageiros.
Outro que prefere a rotina de quem trabalha no transporte coletivo é Mizael de Oliveira. Motorista há cinco anos, quando começou, ele trabalhava em uma linha, mas logo passou para a 109, na qual seu trabalho se baseia em levar e trazer passageiros da rodoviária ao centro da cidade. De segunda a sexta-feira, ele só trabalha nessa linha, mas conta que de final de semana existe um revezamento. Além de gostar da rotina em si, ele também está satisfeito com a linha em que trabalha, pois a considera muito tranqüila. No entanto, apontando os dedos para a própria barriga, como se fosse uma arma, Mizael fala do sofrimento de alguns colegas, que se sentem inseguros por trabalharem em rotas perigosas.
O sonho do carro próprio
Final de tarde, corpo cansado, vontade de voltar para casa e esse ônibus que não chega! E quando chegar, provavelmente estará lotado. Sempre tem quem ocupe banco com sacola ou criança, todo mundo olha, se irrita e ninguém fala nada. Pior ainda é ver gente que invade os lugares reservados para idosos e gestantes. E não está nem aí se tem velhinho ou mulher grávida no ônibus. Claro, sempre há entre os presentes, quem use o bom senso e a educação. Mas, a impressão que se tem é que esse “alguém” somos sempre nós mesmos.A situação acima é corriqueira e evidencia a dificuldade no convívio forçado pela coletividade dos veículos. Não escolhemos quem senta ao lado, nem com quem dividimos o corredor. Fatores como ruas esburacadas, curvas fechadas, freadas bruscas e motoristas imprudentes contribuem para o mal estar dos passageiros, que sacolejam de um lado para o outro e se esbarram de forma involuntária.
Estudos sobre linguagem corporal revelam que nas ocasiões em que o contato físico com estranhos é inevitável, acabamos por coisificar o outro para tornar a situação menos desgastante. Assim, abrimos mão do nosso espaço pessoal para não nos sentirmos invadidos e invasores do território do outro. . “Às vezes eu converso com quem senta do lado, outras vezes não, mas quando o ônibus tá muito cheio, aquele empurra-empurra me irrita!” comenta Vanessa Pereira, estudante que crê na mudança dessa situação: “Um dia, se Deus quiser, eu compro um carro!”
Para ver com outros olhos
Olhar com o ouvido, ver com a pele, enxergar com o olfato. Experiência pura e viva de sinestesia. Quer um exemplo? Pense numa sala ampla, com uma cadeira ao centro. Na cadeira estão dois xales, ao primeiro olhar semelhantes, distinguindo-se apenas nas cores, um rosa e o outro bege. Duas mulheres aproximam–se e, sem nenhuma dificuldade, cada uma identifica o seu. Simples, diria o leitor, a identificação aconteceu pela cor. Nada seria mais óbvio, se as duas mulheres não fossem cegas. O que teria acontecido, então?O segredo da história é que, na verdade, os xales pareciam iguais, mas não eram. Diferenciavam-se não apenas na cor, mas também no ponto de crochê de que eram feitos. Detalhe imperceptível aos olhos, porém, apreendido pelas mãos. “Na rua, percebo os locais livres para a passagem, pela corrente de ar que sinto na minha pele”, explica Lindaura Prezotti, que possui somente 5% da visão. Ela e mais seis pessoas, participam da oficina “Movimento Expressivo”, dentro da programação dos Projetos de Maio no FILO. A oficina pretende mostrar uma percepção particular de Londrina, mostrar a cidade percebida pelos cegos.
Os cheiros que Londrina tem, os seus sabores e outras sensações, que estão além do olhar. “Eles me relataram casos que viveram ou presenciaram e a gente montou o espetáculo, que trabalha a linguagem textual e corporal também”, explica Ceres Vittori, professora de artes cênicas e coordenadora do trabalho. “Gostei muito, é bom as pessoas conhecerem as situações que a gente passa e entender que somos tão normais quanto elas”, fala Marta Marssei, que participa pela segunda vez de oficinas do FILO. Para o estudante de artes cênicas Jodair Moreno, o trabalho com os cegos foi gratificante: “O programa foi rápido, mas essa experiência mudou minha vida. Às vezes eles atuam melhor que eu”, revela.
O trabalho, desenvolvido pelo grupo durante a oficina, resultou no espetáculo “Em terra de cego, quem tem olho é cego”, que será apresentado neste sábado, às 19h30 no Espaço Petrobras. “Eles vão ter que conduzir o público, normalmente, eles são conduzidos, esse vai ser o desafio”, explica Ceres. “A gente queria ter a casa cheia”, comenta Lindaura.
Cultura e imprensa em debate
Idéias são múltiplas, ideais também. Cada um tem o seu, usa como quer. Uns gostam disso, outros sonham com aquilo e há ainda quem nem pense nisso. Mas é do confronto das diferenças que nasce o novo. Um debate de idéias foi realizado na tarde de ontem, no Espaço Petrobrás, onde estudantes e jornalistas participaram da mesa redonda “Cultura e Imprensa”. Entre os participantes estavam os jornalistas Miguel Anunciação (do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte); Francismar Lemes (repórter de Cultura da Folha de Londrina); Andréa Monclair (assessora de imprensa) e o diretor artístico do Ballet de Londrina, Leonardo Ramos. A mediadora do debate foi a jornalista Célia Musilli, da assessoria de imprensa do FILO.
Trocas de experiências profissionais, de impressões particulares e principalmente a exposição da realidade cotidiana dentro das redações foram a base para discussão a respeito da cultura e do tratamento dado a ela pela imprensa. A cultura, em muitos veículos, é tratada como agenda e “agenda boba”, de acordo com Leonardo Ramos. O coróegrafo contribuiu com um olhar de quem está de fora do processo de produção da notícia, revelando as dificuldades que os grupos artísticos alternativos ou menos conhecidos têm para a divulgação de seu trabalho. Nas páginas dos jornais, manifestações culturais e artísticas disputam espaço com os anúncios e com as notícias sobre as celebridades. Nessa batalha, para a infelicidade do público e do jornalista, o banal e o medíocre, muitas vezes, se sobressaem, assinalou Leonardo.
“É preciso ir contra a massificação”, defende a jornalista Andréa Monclair, que vê na abordagem do regional e do local, uma alternativa inteligente para se sair do lugar comum. Em parte, a mesmice é resultado da limitação do profissional às assessorias de imprensa. “As assessorias pautam as editorias”, revela Miguel Anunciação, que também aponta a parcela de culpa dos leitores, que se contentam com a mediocridade das reportagens. “Estou desencantado com o jornalismo, os que cultivam a palavra estão ficando fora das redações. Estamos ficando esvaziados também”, desabafa o jornalista Francismar Leme.
O prevalecimento dos interesses dos anunciantes sobre o conteúdo editorial, a falta de leitores mais críticos, as dificuldades financeiras das empresas, os "rodízios" nas redações - com a
troca de profissionais qualificados por outros mais jovens ou que ganham menos - além da falta de tempo e espaço para aprofundar as pautas contribuem para o empobrecimento do jornalismo cultural, entretanto, para os debatedores é possível driblar parte das dificuldades mantendo a ética e o senso crítico. Eles também lembraram a busca de novos espaços e a importância da internet como meio de divulgação de cultura.
Público atento
Entre o público, olhos e ouvidos atentos. Nem sempre é fácil admitir e mesmo compreender que o exercício da profissão de jornalista não é glamuroso e que o romantismo esbarra na realidade. “O jornalismo é um produto burguês, esse é o público alvo dos jornais”, argumenta Miguel Anunciação, que é contestado pelos estudantes, quando o debate é aberto para as perguntas. Um embate entre o idealismo e a prática se estabelece. De um lado, profissionais inseridos no cotidiano das redações e, do outro, estudantes com a visão de um jornalismo ideal. Um consenso seria possível? O jornalista Francismar Leme acredita que sim: “O idealismo é fundamental, é isso que motiva meu trabalho, as alternativas são poucas, mas existem”, conclui.
Para Juliana Franco, jornalista presente na platéia, a discussão poderia ser mais crítica: “Achei que a mesa teve uma postura defensiva. Eles fugiram de questões mais profundas”, enfatizou. Para o estudante de jornalismo Rogério Cavalcante, a diversidade do público e dos debatedores foi importante: “Só faltaram mais propostas de iniciativas”, ponderou. Letícia Bombo, também estudante, concordou com o amigo Rogério, “Foi eclético, valeu a discussão”, concluiu.
Versatilidade a toda prova

Para sobreviver, o artista precisa fazer muitas coisas”. Faça o que eu digo e sim, faça o que eu faço! Ator de cinema, professor de história, diretor e ator também no teatro. O norte-americano Paul Lazar é assim, “multitarefado”. Hoje, mais por opção do que necessidade. Entretanto, no início da carreira, a versatilidade era indispensável “O cinema pagava o teatro”, disse. Essas revelações foram feitas ontem durante a palestra que Lazar fez no Espaço Petrobras – Casa de Cultura, dentro da programação do FILO 2007.
Atualmente, na direção do grupo Big Dance Theater, que encenou no festival o espetáculo “The Other Here”, no Teatro Ouro Verde, Lazar ensaia seis horas diárias, cinco vezes na semana. Os ensaios são divididos em três momentos, um para a dança, outro para a leitura da peça e, por fim, o momento da síntese. Transitando entre diferentes linguagens como o teatro, a dança e o cinema, Lazar acredita na possibilidade de comunhão entre muitos elementos. “A improvisação que aprendi a ter no teatro é essencial para mim, no cinema. Do mesmo modo, que a sinceridade das cenas do cinema são importantes no teatro”. O estudante de artes cênicas, Rodrigo Juliano assistiu à palestra e aprovou a conversa com Lazar “A gente pode acompanhar a prática e trazer isso para o nosso traballho”, concluiu.
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