Reportagens, ideias e afins

Por Angélica Oliveira

Cultura e imprensa em debate


Idéias são múltiplas, ideais também. Cada um tem o seu, usa como quer. Uns gostam disso, outros sonham com aquilo e há ainda quem nem pense nisso. Mas é do confronto das diferenças que nasce o novo. Um debate de idéias foi realizado na tarde de ontem, no Espaço Petrobrás, onde estudantes e jornalistas participaram da mesa redonda “Cultura e Imprensa”. Entre os participantes estavam os jornalistas Miguel Anunciação (do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte); Francismar Lemes (repórter de Cultura da Folha de Londrina); Andréa Monclair (assessora de imprensa) e o diretor artístico do Ballet de Londrina, Leonardo Ramos. A mediadora do debate foi a jornalista Célia Musilli, da assessoria de imprensa do FILO.
Trocas de experiências profissionais, de impressões particulares e principalmente a exposição da realidade cotidiana dentro das redações foram a base para discussão a respeito da cultura e do tratamento dado a ela pela imprensa. A cultura, em muitos veículos, é tratada como agenda e “agenda boba”, de acordo com Leonardo Ramos. O coróegrafo contribuiu com um olhar de quem está de fora do processo de produção da notícia, revelando as dificuldades que os grupos artísticos alternativos ou menos conhecidos têm para a divulgação de seu trabalho. Nas páginas dos jornais, manifestações culturais e artísticas disputam espaço com os anúncios e com as notícias sobre as celebridades. Nessa batalha, para a infelicidade do público e do jornalista, o banal e o medíocre, muitas vezes, se sobressaem, assinalou Leonardo.
“É preciso ir contra a massificação”, defende a jornalista Andréa Monclair, que vê na abordagem do regional e do local, uma alternativa inteligente para se sair do lugar comum. Em parte, a mesmice é resultado da limitação do profissional às assessorias de imprensa. “As assessorias pautam as editorias”, revela Miguel Anunciação, que também aponta a parcela de culpa dos leitores, que se contentam com a mediocridade das reportagens. “Estou desencantado com o jornalismo, os que cultivam a palavra estão ficando fora das redações. Estamos ficando esvaziados também”, desabafa o jornalista Francismar Leme.
O prevalecimento dos interesses dos anunciantes sobre o conteúdo editorial, a falta de leitores mais críticos, as dificuldades financeiras das empresas, os "rodízios" nas redações - com a
troca de profissionais qualificados por outros mais jovens ou que ganham menos - além da falta de tempo e espaço para aprofundar as pautas contribuem para o empobrecimento do jornalismo cultural, entretanto, para os debatedores é possível driblar parte das dificuldades mantendo a ética e o senso crítico. Eles também lembraram a busca de novos espaços e a importância da internet como meio de divulgação de cultura.
Público atento
Entre o público, olhos e ouvidos atentos. Nem sempre é fácil admitir e mesmo compreender que o exercício da profissão de jornalista não é glamuroso e que o romantismo esbarra na realidade. “O jornalismo é um produto burguês, esse é o público alvo dos jornais”, argumenta Miguel Anunciação, que é contestado pelos estudantes, quando o debate é aberto para as perguntas. Um embate entre o idealismo e a prática se estabelece. De um lado, profissionais inseridos no cotidiano das redações e, do outro, estudantes com a visão de um jornalismo ideal. Um consenso seria possível? O jornalista Francismar Leme acredita que sim: “O idealismo é fundamental, é isso que motiva meu trabalho, as alternativas são poucas, mas existem”, conclui.
Para Juliana Franco, jornalista presente na platéia, a discussão poderia ser mais crítica: “Achei que a mesa teve uma postura defensiva. Eles fugiram de questões mais profundas”, enfatizou. Para o estudante de jornalismo Rogério Cavalcante, a diversidade do público e dos debatedores foi importante: “Só faltaram mais propostas de iniciativas”, ponderou. Letícia Bombo, também estudante, concordou com o amigo Rogério, “Foi eclético, valeu a discussão”, concluiu.

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